Caminhoneiros ameaçam greve; líder da categoria se arrependeu de apoio a Bolsonaro

11
A Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (Segup) garantiu, em parceria com o Exército Brasileiro, por meio do Comando Militar do Norte, e amparada pelo Decreto número 9.382, de 25 de maio de 2018, o reforço na segurança durante o traslado dos caminhões com combustíveis que saíram do Porto de Miramar para o município de Santa Maria do Pará. FOTO: THIAGO GOMES / AG. PARÁ DATA: 29.05.2018 MARITUBA - PARÁ

Embora não acreditem na repetição de uma greve como o de 2018, aliados do presidente Jair Bolsonaro (PL) ficaram inquietos com a proliferação de áudios e mensagens na tarde desta quinta-feira (10) de líderes de caminhoneiros prometendo paralisação por causa do aumento dos combustíveis.

As ameaças que circularam incluíram bloqueios na BR-163, a rodovia da soja, em Mato Grosso e Pará, e greve de “cegonheiros” no ABC paulista, o que afetaria a indústria automotiva.

O governo conta com a aprovação de projetos de redução do preço de gasolina e diesel no Congresso para esfriar os ânimos. Segundo um ministro, as medidas legislativas “ajudam muito” a conter o desgaste político.

Foi um erro apoiar Bolsonaro, diz líder caminhoneiro Chorão
Um dos principais líderes da greve dos caminhoneiros de 2018, Wallace Landim, o Chorão, se diz arrependido de ter apoiado o presidente Jair Bolsonaro (PL), após a Petrobras ter anunciado um mega-aumento no preço da gasolina, do gás de cozinha e, principalmente, do diesel.

“Apoiei o Bolsonaro, fiz campanha para ele, e de graça. Recebi a comenda do mérito de Mauá, o maior mérito do transporte que existe no Brasil, pelos serviços prestados ao transporte. E, com toda sinceridade, não trabalho mais para ele, não voto nele. Tudo o que prometeu para nós, ele não cumpriu”, diz Landim.

Ele considera, porém, que não será necessário chamar uma paralisação no momento, já que o país parará “automaticamente”, frente à inviabilização das atividades de transporte.

Outros dois representantes dos caminhoneiros ouvidos pela reportagem, José Roberto Stringasci, da ANTB (Associação Nacional de Transporte do Brasil), e Carlos Alberto Dahmer, da CNTTL (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transporte e Logística) confirmaram a intenção de não convocar nenhuma paralisação da categoria.

Como Chorão, consideram que se trata de um problema de toda a sociedade e, portanto, pretendem participar e angariar interessados para manifestações da sociedade civil contra a política de preço dos combustíveis do governo Bolsonaro.

“Não iremos nos manifestar como caminhoneiros, mas como brasileiros, já que esse problema afeta a todos nós”, diz Stringasci, da ANTB, que pretende realizar nesta sexta uma reunião em São Paulo para discutir o que fazer daqui para frente.

Para Dahmer, da CNTTL, o problema afeta todos no país. “É um crime contra o povo brasileiro. Avançou do horrível para o aterrorizante, não tem situação pior do que esta, com a política que veio do governo Temer, de paridade em relação às cotações da moeda norte-americana. E que visa apenas dar lucro aos acionistas”, afirma Dahmer, cuja associação reúne cerca de 800 mil trabalhadores de transportadoras e autônomos em todo o país.

Para o representante da CNTTL, cerca de 70% da categoria dos caminhoneiros autônomos votaram em Bolsonaro –ainda que ele afirme não ser este o seu caso. “Mas agora caiu muito, ainda que cerca de 30% ainda estejam decididos a votar novamente neste ano”, afirma Dahmer.

Landim, hoje presidente da Abrava (Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores), considera que Bolsonaro indicou àquela altura que pretendia mexer com a chamada política de paridade de preços internacionais, que transmite quase automaticamente para as bombas de combustíveis a alta do petróleo no mercado internacional.

“Bolsonaro tinha uma narrativa de que iria fazer alguma coisa pelo preço do combustível. Quando fizemos a paralisação, logo em seguida saiu um vídeo dele apoiando aquele ato, dizendo que se ele fosse presidente, iria realmente mexer. Colocou o Castello Branco (na presidência da Petrobras) com essa narrativa. Colocou o Luna (general Joaquim Silva e Luna, atual presidente da estatal) com essa narrativa. E melhorou? Piorou”, afirma Landim.

Para o líder caminhoneiro, foi um erro apoiar o candidato Bolsonaro. “Não deveria ter apoiado em 2018, mas tivemos uma postura para trazer uma mudança para o país, com uma arma muito importante neste momento que são as redes sociais”, diz o ex-caminhoneiro, hoje dedicado a representar a categoria.

“Todos estão sofrendo, não só os caminhoneiros. A população não está conseguindo comer, não consegue comprar o gás de cozinha, que já vale mais de 10% do salário mínimo”, diz Landim.

Como alternativas, Landim apoia a criação de um fundo para estabilizar os preços dos combustíveis, pondo fim à atual política de preços. E a contratação direta dos caminhoneiros, que serviria, segundo ele, para tirar os “atravessadores” (transportadoras e embarcadoras), melhorando a margem dos caminhoneiros.

No primeiro caso, no entanto, viu a pauta enfrentar a oposição do ministro Paulo Guedes (Economia). E, no segundo, o que considera a inação do ministro Tarcísio Freitas (Infraestrutura).

Landim diz ser positiva a PEC (Projeto de Emenda Constitucional) dos Combustíveis, que reduz a cobrança de ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços), ainda que a considere um remendo, não uma solução definitiva.

“Temos um governo hoje que fica transferindo a responsabilidade. Como foi feito na PEC (Projeto de Emenda Constitucional) dos Combustíveis, ia ser votada ontem, mas foi tirada da pauta. Diz que vai entrar hoje, mas de qualquer forma é um paliativo. No texto (da PEC) diz que reduziria em 30%, mas só hoje teve um aumento de 25%. Não resolve a situação, e estamos desesperados.”, afirma.

Clique aqui e assine

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA