PM diz que sofreu injúria racial, frentista agredido nega e diz: ‘me chamou de viado e vagabundo’

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“Eu sou preto, minha família é toda preta. Eu já sofri na pele esse tipo de agressão, sei o quanto essa palavra dói [macaco], eu jamais falaria isso com ele”, disse Eduardo Wilhiam, frentista de 20 anos, ao rebater a acusação de injúria racial feita pelo capitão da Polícia Militar Jefferson Gomes. O jovem foi agredido pelo oficial com um tapa no rosto em um posto de combustível no bairro Cidade Satélite, zona Oeste de Boa Vista, nesse domingo (3).

Ao g1, o jovem, que também é estudante de enfermagem, afirma que além da agressão física, o militar, que estava a paisana, também usou ofensas homofóbicas, chamando a vítima de “viado” e de “vagabundo”. Eduardo registrou um boletim de ocorrência (B.O) no 3º Distrito Policial.

“Depois da agressão dele, eu chamei ele de vagabundo, mas foi depois que ele me agrediu. Em momento algum eu chamei ele disso [macaco]. Ele me chamou de vagabundo e disse ‘vou te ensinar a ser homem, vou quebrar esse teu aparelho [dentário]’. Me chamou de ‘viado’, e eu não falei nada desse tipo [injúria racial] com ele”, relata o frentista.
Procurado pela reportagem, o policial disse que não foi homofóbico e se confundiu ao dizer que não conhecia o “gênero sexual” do jovem, em vez de orientação sexual. Ele também voltou a afirmar que foi chamado de “macaco” e “gorila” na discussão, mas que reconhece o erro, “pois durante a discussão perdi a calma e pratiquei um ato de lesão corporal”.

“Reconheço o meu erro quanto a questão e me coloco a disposição para os devidos esclarecimentos legais, contudo, declaro que não o chamei de vagabundo, mas sim, foi ele quem me chamou. Também desconhecia a opção de gênero sexual do mesmo, haja vista que nunca o tinha visto na vida”, declarou o oficial.

Imagens feitas por pessoas que estavam no local mostram o momento da agressão. É possível ver quando o capitão se aproxima do funcionário e desfere um tapa no rosto do jovem, que não reage e se abaixa para pegar seu boné.

O jovem, que trabalha no posto há um ano e dois meses, conta que estava limpando uma pista do posto que estava sujo de combustível quando Jefferson se chegou com o carro.

“Foi bem rápida a ação. Ele chegou, estacionou o carro na ponta, do lado de onde eu estava limpando o combustível que tinha derramado na pista. Ele desceu do carro já alterado e perguntou se eu não iria abastecer, eu falei que não, que ou ele aguardava os outros frentistas ou ele iria para o outro lado da pista. Ele se revoltou, perguntou se eu conhecia ele e se eu sabia com quem eu estava falando. Eu falei que não sabia, que não conhecia e também que não queria saber”.

Eduardo conta que após a primeira discussão, saiu do local e um outro frentista já estava atendendo o capitão da PM, quando foi chamado de “vagabundo” pelo oficial.

“Eu só passei do lado dele e ele me chamou de vagabundo e disse ‘vou te ensinar a ser homem, vou quebrar esse teu aparelho’ e eu só virei e falei ‘é bem eu mesmo que sou vagabundo, tô (sic) no meu local de trabalho e eu sou o vagabundo’. Ele se revoltou com isso e veio para cima de mim”, conta.
Eduardo disse que ficou sem saber o que fazer e foi até o meio do posto para que as câmeras de segurança pudessem registrar o momento. Segundo Eduardo, após o tapa, o capitão começou a debochar do jovem com ofensas homofóbicas.

“Na hora que ele deu um tapa no meu rosto, ele saiu debochando e eu fiquei sem entender nada. Peguei meu boné e saí na cabine, ele continuou debochando de mim e eu falei ‘você é um vagabundo mesmo, que eu tô aqui no meu local de trabalho e o senhor vem aqui e me agride’… falei várias coisas no calor da emoção”.

Horas após as cenas da agressão repercutirem, o capitão divulgou um vídeo com sua versão. Ele afirma ter sido chamado de “macaco” e que teve a mãe ofendida pelo jovem, por isso cometeu a agressão. O oficial também exibiu um boletim de ocorrência registrado contra Eduardo por injúria racial.

Capitão da PM Jefferson Gomes divulgou vídeo com sua versão — Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Repercussão do caso
Após o ocorrido, Eduardo afirmou ter se espantado com a rápida viralização dos vídeos que mostram o momento. Ele disse ter sentido medo e preocupação.

“Na hora eu fiquei com muito medo, foi muito rápido o que foi postado nas redes sociais e já deu um grande alvoroço… as pessoas começaram a me mandar mensagem, logo me falaram que ele é policial. Na hora que eu soube disso, já peguei minhas coisas e fiquei em uma salinha reservada, pois eu estava com medo e não sabia o que ele poderia fazer”.

Agressão ocorreu em um posto de gasolina, em Boa Vista. — Foto: Raniely Carvalho/Reprodução

Eduardo disse que os donos do posto de gasolina ofereceram suporte jurídico no caso. Após registrar o B.O, o jovem conta que também foi abordado por um major da PM que ofereceu suporte e pediu desculpas em nome da corporação.

“Quando eu estava no posto esperando, chegou um major da PM que falou comigo, me explicou toda a situação, me pediu desculpas em nome da corporação, pois um caso desse não pode ser generalizado. Eu entendi o lado dele e falei que tudo bem. Ele perguntou se eu queria ir na corregedoria com ele para eu prestar os esclarecimentos e eles averiguarem o fato e tomarem as medidas cabíveis”.
Agora, o que Eduardo Wilhiam pede é que a justiça seja feita e que “medidas certas para o caso sejam tomadas”. Procurada novamente pelo g1, a Polícia Militar informou que está tomando as medidas cabíveis sobre o caso e que repudia qualquer ato de violência praticado por seus militares.

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